A expressão da sexualidade das pessoas com autismo

Créditos: incluyeTIC
Por Marina da Silveira Rodrigues Almeida [1]

O homem é a única criatura que se recusa a ser o que ela é”. Albert Camus

A pessoa com Autismo tem necessidade de expressar seus sentimentos de modo próprio e único, como qualquer pessoa, por isso neste artigo vamos conversar um pouco sobre os mitos e realidades em torno da sexualidade destas pessoas.

A repressão da sexualidade é usualmente encontrada e entendida nestes grupos, como conseqüência de um desequilíbrio interno, dos afetos, dos comportamentos, da maneira de se relacionar no mundo, diminuindo assim as possibilidades de se tornarem seres psiquicamente saudáveis.

Observamos nos casos em que a sexualidade é bem encaminhada na vida destas pessoas: melhora o seu desenvolvimento afetivo, transcurso da puberdade/adolescência/vida adulta mais tranqüila e feliz, facilita a capacidade de se relacionar, melhora a auto-estima, permite a construção da identidade adulta e a adequação à sociedade.

O tema sexualidade em nossa cultura vem sempre acompanhado de preconceitos e discriminações, e talvez sempre permaneça assim, pois pertence a ordem dos tabus, das questões inerentes a  origem do ser humano.

Notamos que a sobrecarga de valores morais e preconceitos aumentam quando o tema passa a ser sexualidade da pessoa autista, geram polêmica quanto às diferentes formas de abordá-lo, isto acontece na sociedade, na família, com os pais e na escola.

Destacamos que pouco se tem escrito na literatura, há poucos artigos, livros e referências sobre a pessoa autista e sua sexualidade, visto a complexidade desta discussão a dificuldades em vê-los como pessoas como uma identidade sexual, humana e com desejos; em contrapartida  os materiais publicados referente a pessoa com autismo, via de regra encontramos as orientações baseadas nas abordagens de extinção do comportamento sexual, através de métodos e técnicas aversivas. Pouco se tem escrito numa abordagem humanística sobre o protagonismo juvenil.

A palavra Autismo vem do grego “autos”, que significa si mesmo. Refere-se a alguém que está retraído em si mesmo, porém isto se aplica a crianças autistas de pouca idade. A medida que elas crescem, podem tornarem-se mais sociáveis ou não. Junto a esse retraimento, estão os problemas e condutas específicas de cada criança em seu intento de encontrar ou criar uma ordem no mundo caótico que ela não consegue entender.

“Autismo é um transtorno de desenvolvimento. Não pode ser definida simplesmente como uma forma de deficiência intelectual embora muitos quadros de autismo apresentem QI abaixo da média.  A palavra autismo atualmente pode ser associada a diversas síndromes. Os sintomas variam amplamente, o que explica por que atualmente refere-se ao autismo como um espectro de transtornos; o autismo manifesta-se de diferentes formas, variando do mais alto ao mais leve comprometimento, e dentro desse espectro o transtorno, que pode ser diagnosticado como autismo, pode também receber diversos outros nomes, concomitantemente. Os atuais critérios de diagnóstico do autismo estão formalizados na norma DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico da Associação Americana de Psiquiatria). Um esquema de diagnóstico parecido é encontrado na CID10 (Classificação Internacional de Doenças), publicado pela Organização Mundial de Saúde.  A síndrome autista foi definida como "isolamentos e recusa profunda de contato com as pessoas, desejo obsessivo de manter a mesma uniformidade, relação afetuosa e habilidosa com objetos, fisionomia inteligente e mutismo ou, pelo menos, um tipo de linguagem que não parece destinada à comunicação interpessoal", por Leo Kanner, psiquiatra americano, em 1943.  Segundo a ASA (Autism Society of America), autismo é um distúrbio do desenvolvimento permanente e severamente incapacitante. Normalmente aparece durante os três primeiros anos de vida.  No momento, entretanto, não há exames de sangue ou de cromossomos para o autismo: o diagnóstico é comportamental e feito com base nos três eixos: interação social, comunicação e imaginação, e na presença de um repertório restrito de interesses. (American Psychiatric Association, 1987).

Por mais que educadores, profissionais, pais e demais pessoas envolvidas lembrem que a sexualidade é uma função natural, existem em todos os indivíduos toda dificuldade em tratar do assunto de maneira prática, porque teoria esta vastamente publicada explicada, nomeada, por diversos autores de maneira pertinente e fundamentada.

A questão então não é mais teorizar, explicar, como uma regrinha de jogo, ou pertinente ao campo científico, da psiquiatria, da psicanálise, da abordagem cognitiva comportamentalista, da psicologia do desenvolvimento, etc.

Pensar e falar sobre o tema sexualidade envolve nossa angústia, reporta-nos a nossas instâncias do que acreditados ser sexo, na nossa vida, na relação com o outro, sobre nossos desejos, fantasias, repressões, mitos e realidades. Propomos estas questões para pensar: Como lidamos com sexo? O que fazemos? Como nos relacionamos afetivamente? Criativamente? Com as demais pessoas?  .

A partir do momento que pudermos pensar em sexualidade relacionada a afetos, relacionamentos afetivos e não mais puramente da esfera dos genitais, conseguiremos intervir criativamente nas situações, sem tantos sobressaltos, medos, reservas, preconceitos, autoritarismos, castigos.

Nos últimas décadas a melhora dos cuidados de saúde concomitante aos avanços científicos e da medicina, como por exemplo, às intervenções precoces na gravidez, cuidados pré-natais, pós-parto, vacinas e a qualidade de vida social, as pessoas com deficiência ganharam longevidade, sua expectativa de vida melhorou qualitativamente, estão aí os adolescentes, os adultos, e muitos com certeza caminharão para a senilidade.

Falar sobre sexo não é dar uma aula de Biologia da Reprodução Humana. Por isso a importância do trabalho em conjunto, dos professores unirem-se para estudar, discutir seus casos, discutir com os pais e a família.

Todos possuem um nível de compreensão, mesmo apresentando resistências. A resistência muitas vezes é de cunho religioso ou por falta de informações adequadas.

A maior parte dos indivíduos portadores de TID (transtorno invasivos do desenvolvimento) apresentam um desenvolvimento biológico normal da sexualidade. Entretanto, no desenvolvimento psicológico ocorre uma série de alterações que se manifestam na conduta e podem variar de  intensidade e freqüência, dependendo do grau de distúrbio e do nível intelectual. Em alguns deles predomina a necessidade de satisfação imediata dos próprios impulsos. Segundo Haracopos e Pederson (1989), em outros casos, a capacidade de conter os impulsos sexuais e agressivos é rudimentar, havendo pouca ou nenhuma autocrítica. Pode ocorrer também uma distorção da percepção da realidade, bem como capacidade limitada ou ausente de fantasiar ou imaginar, assim como ansiedade ligada ao sentimento de excitação sexual, associações bizarras e pensamento concreto. Haracopos e Pederson (1989)

Limite de quem? Não entendemos que eles não tenham limites, talvez não saibam parar e quando podem ou não podem pegar em seus genitais. A questão da masturbação está no limite de onde pode, quando, intensidade e frequência. Eles estavam obtendo prazer, se entretendo com seus genitais, talvez até insistiu no comportamento por falta de algo melhor na realidade para investir, se ligar... Então esse é nosso gancho, é bom se ligar com gente, este é o nosso papel!

Não vimos ninguém se masturbando ou se exibindo com cara de coitadinho, aliás, estavam curtindo toda a situação, salvo exceções de alguns casos podem se machucar numa tentativa pouco organizada de tentarem prazer de maneira mais adequada.

Poderíamos ouvir no silêncio das falas destas pessoas como, algo assim:

“Tudo bem gosto de vocês, gosto da minha casa, da escola, então vou fazer o que me mandam,... Acho que isto que sinto é muito ruim, devo me submeter ao que vocês querem. Então vou tomar o remédio e ficarei quietinho. Não aborrecerei mais ninguém com minhas angustias de não saber também o que sinto, o que faço.
“Tudo isso está tão chato e desinteressante, meu corpo me dá um sensação boa quando eu mexo nele, é bom ficar assim desligado”.
“Achei que esta vontade louca de me masturbar fosse bom, estava aqui sozinho... estava muito bom”.
“Descobri que não posso ter prazer com meu corpo na escola! Por que será? Vou experimentar em outros lugares? Aonde será que pode?”.

Os mais valentes ou agressivos com a vida respondem com a subversão, não querem tomar a medicação, ficam hostis, conseguem expressar através de seus desmandos, desobediências que não é disto que precisam, não se submetem, podem dizer algo assim:

“Preciso continuar a fazer isso(...) estou falando do meu jeito, vocês é que não entendem, não consigo saber o que querem e o que sentem sobre isso que faço”...
“Estou crescendo e não sei o que fazer com este meu corpo novo, com estas mudanças, com meu crescimento, com estes desejos...”
“Fico muito atrapalhado com as mudanças em meu corpo, desejos, excitações, meu corpo modificou-se, eu não consigo compreender, fico muito desorganizado, com medo, assustado, ao mesmo tempo tudo é muito bom, é uma confusão na minha cabeça”.
“Não entendo direito porque me batem me ameaçam, ficam bravo comigo, tem algo que faço que não é para fazer, por que será?Por que as pessoas ficam assim quando pego no meu corpo?””

Para a família, a segregação do filho(a) com deficiência é uma forma de proteção para o próprio núcleo familiar que também tenta se poupar e evitando a exposição do filho(a). No entanto, isto acaba por dificultar as noções de regras sociais e de bom convívio, fora de seu ambiente escolar e familiar.

Para piorar, a pessoa com deficiência raramente tem privacidade, o que dificulta o entendimento do que é privado ou público: o quarto às vezes é mantido as portas abertas ou sendo proibido fechar a porta ou apagar a luz. Muitas vezes os pais, irmãos não batem na porta do quarto, invadem a dentro. Os banhos são supervisionados, impedem que possam ter contato com seu corpo, que possam notar suas modificações físicas, sobra pouco tempo para que eles possam desenvolver sentido de privacidade, de liberdade, de respeito, de contato corpóreo.

Além disso, a maioria das pessoas acredita que o deficiente não tem auto-percepção, precisam ser controlados, repreendidos, ameaçados, chantageados. Tanto a família como muitos profissionais tendem a impor condutas de comportamento, passando por cima dos seus sentimentos, não consideram que as pessoas com deficiência intelectual e autismo podem ter limitações intelectuais mas não têm limitações de seus sentimentos.

Vejamos as diferenças entre às singularidades das pessoas com  Autistas.

A pessoa com Autismo vai precisar de apoios para compreender o mundo a sua volta de forma a desenvolverem sua identidade como jovem e futuro adulto libertando-se do modelo infantilizado, de maneira concreta, firme, vivenciando a experiência através de teatros, escrevendo, desenhando, expressando-se artisticamente.

Para podermos manejar as expressões sexuais inadequadas, precisamos observar alguns aspectos, tais como: quando ocorrem, em que contexto, em que lugar, qual a freqüência, e principalmente tentar descobrir qual o estímulo (interno ou ambiental ) desencadeante da conduta em questão. A partir desses dados, estratégias podem ser cridas para tentar compreender, traduzir em linguagem verbal (escrita, gestual, simbólica etc.) evitar, modificar e adequar a expressão ou comportamento sexual.

A primeira das três categorias principais do TID é o Distúrbio da Interação Social. É evidente que dentro desta categoria encontramos numerosos sintomas, tais como: dificuldade em aceitar mudanças na rotina diária, muitos apresentam resistência ao contato físico, embora alguns possam tolerar algum contato dependendo do momento, de quem o toca e da intensidade e duração. Em outros casos, o individuo quer abraçar ou agarrar uma ou várias pessoas, de maneira invasiva e fora de contexto, geralmente sem percepção do sentimento alheio. A agressividade (chutes, mordidas, socos, tapas, beliscões, puxar os cabelos, cuspir, etc.) também pode ser um distúrbio social importante, que muitas vezes é causada por uma pequena frustração ligada a alguma atividade da vida cotidiana e, outras vezes ocorre sem uma causa aparente. Pode-se dizer que a impossibilidade de estabelecer empatia ou perceber os sentimentos alheios são alguns dos pontos marcantes da personalidade de muitos desses indivíduos. Em outras palavras, eles não conseguem se colocar no lugar de outra pessoa. A Habilidade de Imaginar o que se passa na mente do outro não faz parte do repertório social desses indivíduos (Frith,1989). Esta inabilidade afeta diretamente tanto a capacidade de perceberem os sentimentos, necessidades e desejos alheios, como também os seus próprios. De certa maneira isso afetará significativamente a possibilidade de compreenderem e respeitarem uma série de regras sociais. A Segunda categoria: Distúrbios da Comunicação. Todos sabemos que se não houvesse comunicação entre as pessoas não haveria possibilidade de organização social. Pois bem, praticamente todos os indivíduos portadores de TID apresentam distúrbios da comunicação, que podem variar desde um isolamento e mutismo absolutos até um desenvolvimento da comunicação muito próximo do normal, sendo que este último é uma ocorrência rara. Alguns indivíduos não se comunicam nem verbalmente nem através de gestos, parecem estar completamente indiferentes ao que acontece ao seu redor. Outros, apesar do mutismo, acabam apontando para as coisas que desejam, estabelecendo assim algum tipo de comunicação intencional (...). A terceira categoria: Estereotipias e Rituais. Estes comportamentos estereotipados e ritualizados podem ser: girar objetos, abanar as mãos, mexer os dedos das mãos ou o corpo de forma rítmica e estranha, andar na ponta dos pés, apego não apropriado a objetos, restrição da variedade de alimentos ingeridos. Também podem estar presentes risos imotivados ou descontextualizados, agressividade e destrutividade. De qualquer forma, essas condutas podem ser freqüentes ou intermitentes. (Transtorno Invasivos do Desenvolvimento- 3.milênio – Dr. Walter de Camargos Jr., 2005)

 As pessoas com Autismo precisam ser ajudadas na compreensão da interação social, adequando-se melhor as relações sociais, através de vivencias com figuras, pranchas com imagens, de maneira a ajudarem a construir sua identidade como jovem e futuro adulto sexual. Estas pessoas não são vistas como tal. A interação da comunicação precisa ser encorajada ou devermos abrir formas de comunicação alternativas para que possam expressar seus sentimentos e suas fantasias envolvendo seu corpo, suas experiências sensórias, perceptivas. O uso da criatividade precisa ser investido, num campo, artístico, musical, plástico, a fim de que possam expressar sua subjetividade concomitante as transformações da sua sexualidade.

Através destes contatos o confronto do ser adolescente encontrou vazão para expressão, e precisam ter o direito de vivenciarem, experimentarem e conhecerem as transformações físicas, afetivas e sociais que são pertinentes deste processo de juventude. E nós temos o dever de ajudá-los a desenvolver estas transformações de maneira adequada.

Ter que enfrentar a sexualidade dos filhos na época da adolescência já é um tabu, gerador de conflitos, impasses, medos para a maioria dos pais. Agora imaginem o quanto é  incrementado de fantasias e preconceitos quando se trata das preocupações de um filho com deficiência.

Os pais por medo de expor o adolescente a riscos físicos e emocionais optam eventualmente por negar, reprimir ou infantilizar a existência do crescimento do filho ou filha na puberdade, lutam para manter seus filhos assexuados. É uma luta perdida, pois não há como parar o crescimento de alguém, o que encontramos é que escapa por outra via, aparecendo a regressão de aptidões que a pessoa  havia adquirido, comportamentos auto ou hetero-agressivos, isolamento, tristeza, adoecimento psíquico, sofrimento.

Nas instituições escolares encontramos os profissionais, também se defendendo, acabam por criarem estigmas, rótulos como se as pessoas autistas fossem ora hiper-sexualizados ora assexuados.

No entanto, muitas instituições de ensino já começam a aceitar/pensar a importância de tal processo na vida do aluno.

O tema sexualidade vem sendo tratado com uma certa freqüência nas escolas, em contraste com a mentalidade do final do século passado, quando havia a visão do sexo como algo sujo e imoral (exceto quando para a procriação).

Os pais e professores da área de saúde e educação precisam lembrar que a vivência sexual das pessoas com deficiência favorece o desenvolvimento afetivo, a capacidade de estabelecer contatos interpessoais, fortalecendo a auto-estima o bem-estar, o amor-próprio, e a adequação à comunidade.

Para que os comportamentos e manifestações sexuais não se tornem problemáticos, existe a necessidade de investimentos na educação sexual; sempre com a participação dos pais e familiares, pois é através destes que há o desenvolvimento psico-emocional e a transmissão de valores para a aquisição de limites.

Os valores, princípios e regras sociais existem porque têm finalidade, nos ajudam a nos proteger e aos outros de situações de abusos e violências, situações constrangedoras e não éticas. Toda sociedade precisa para se organizar e se manter, de algum tipo de ordenação, de regras que possam colocar ordem na desordem. Isto implica em restringir, selecionar, e estabelecer critérios, além de dar valor e hierarquizar. Portanto, sempre encontraremos aquilo que acaba sendo considerado mais ou menos doentio, errado, impuro e anormal, dependendo do período histórico e do grupo social em que se está numa dada sociedade. O importante é pensar, refletir, questionar, conversar, indignar-se, para não incorporarmos passivamente tudo o que nos é apresentado! Isto implica em aprender a impor respeito aos nossos valores, mas saber respeitar os valores dos outros também.

Na escola a educação sexual, deve apresentar-se com disponibilidade do profissional, amor e ciência. Não adianta tratar o assunto como disciplina de conteúdo ou como algo que irá conter a sexualidade.

A orientação sexual para pessoas com deficiência, é um trabalho organizado com diversos objetivos: como por exemplo à prevenção de gravidez indesejada, transmissão de informações sobre sexualidade, o aumento da compreensão sobre o próprio corpo, a orientação sobre os códigos do comportamento sexual, a melhora do relacionamento com sua família e os profissionais, favorecendo o desenvolvimento da identidade.

O educador sexual deve guiar-se por atitudes éticas, não esquecendo de estar atento a suas concepções pessoais em face da sexualidade, verificando com precisão aquilo que a pessoa com deficiência intelectual ou autismo quer saber, interpretando aquilo os acontecimentos afetivos sobre sua perspectiva e não a pessoal, lidando com comportamentos inadequados através da colocação de limites claros e objetivos, através de acordos criados pelo profissional, aluno e ou grupo.

A higiene pessoal e os cuidados íntimos devem ser enfatizados, é uma forma de desenvolver a auto-imagem e auto-estima, desenvolvendo a capacidade de adequação social e o sentimento de posse do corpo.

Na adolescência os meninos com deficiência intelectual ou autismo precisam ser informados sobre a ejaculação e a polução noturna, orientando sobre os cuidados e limpeza. As meninas necessitam de orientação sobre como lidar com a menstruação e ambos precisam ser informados sobre as mudanças que estão ocorrendo com seus corpos.

Nos casos de impossibilidade funcional devido a problemas motores ou em razão à severidade do comprometimento cognitivo e ou afetivo os pais devem assumir tais cuidados, ou pedir que ao jovem os realize com supervisão constante.

A educação sexual deve ser incluída na educação geral, integradas à estimulação sensório-motora, intelectual e das capacidades adaptativas ao meio social, de modo natural. Os recursos pedagógicos poderão ser lúdicos, criativos e desportivos como, por exemplo, os jogos, a música, o esporte, a pintura, modelagem, de modo adequado à idade e ao nível de compreensão, são elementos integradores e interativos para trabalhar o corpo, crescimento, diferenças sexuais, rivalidades, atrações, etc...

É essencial enfatizar a importância do relacionamento afetivo dos pais e familiares, para um adequado desenvolvimento da sexualidade. A família nuclear representa o protótipo de todos os relacionamentos que a pessoa terá com os outros no decorrer de toda a vida, mas ainda para o portador de necessidades especiais que precisa ser aceito pelo seu núcleo familiar; mas na impossibilidade desta fazê-lo cabe a escola resgatar este papel oferecendo suporte dos valores integrativos, de auto-estima, confiança e esperança.

Tanto a pessoa com deficiência intelectual como autismo necessita de respostas coerentes às suas solicitações afetivo-sexuais, que favoreçam sua autoconfiança, sua auto-estima e seu senso de valor.

A ambiguidade no comportamento dos pais e profissionais frente à sexualidade do deficiente levam aos conflitos e atitudes incoerentes de ambas as partes, gerando frustração, dor e muita angústia. A ansiedade e falta de confiança no potencial afetivo-sexual das pessoas com deficiência intelectual e autismo, faz com que fiquemos agitados e irracionais quando temos de lidar com um problema, uma situação.

O que sabemos é que tanto as pessoas com deficiência intelectual e autismo sentem, desejam, sonham, sofrem, como qualquer ser humano, portanto nós é que precisamos libertar-nos dos nossos preconceitos frente à sexualidade humana e proporcionar uma vida com qualidade e respeito as singularidades individuais.

[1] Consultora em Educação Inclusiva. Psicóloga e Pedagoga Especialista. Instituto Inclusão Brasil (2008)

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ALMEIDA, Marina da Silveira Rodrigues. A expressão da sexualidade das pessoas com autismo. Psicologia.pt - O Portal dos Psicólogos. Disponível em: http://www.psicologia.pt/artigos/ver_opiniao.php?codigo=AOP0154 (acesso em 1 de março de 2015)

Homossexualidade e deficiência

Créditos: Disability OnLine
Por Federico Morales D.

Comecemos por... O que é sexualidade? Como entendê-la? A sexualidade é uma parte fundamental do ser humano com base no sexo; inclui gênero, erotismo, vínculo afetivo assim como reprodução; influenciam tanto fatores biológicos quanto psicológicos, sociais, econômicos, culturais e até religiosos, sendo a diversidade sexual tão ampla como os seres humanos que existem no planeta, e é esta mesma diversidade a variável que existe entre os seres humanos, incluindo sua diversidade biológica (seja homem, mulher ou intersexual), a decisão de viver só ou num relacionamento, casar-se ou viver uma relação aberta, ser travesti ou a forma em que decida sentir prazer, assim como o desejo de ter filhos ou não. 

Discriminação: deficiência e homossexualidade

Falar de discriminação e sexualidade não deveria ir de encontro; unir numa só equação homossexualidade, deficiência e discriminação, me parece um tema urgente a ser abordado, sendo que parece impossível pensar que ser uma pessoa com deficiência e ser homossexual, parece-nos de impossível existência.

Presume-se que já é suficientemente ruim ter uma deficiência, ainda mais ser homossexual... Seria o cúmulo! E, no entanto, apenas no continente americano, existem mais de 50 mil surdos homossexuais infectados pelo vírus HIV. Então, sendo uma minoria dentro de uma minoria, mesmo dentro de outra minoria.

Assim, é evidente que as pessoas são influenciadas no que diz respeito aos valores e comportamentos esperados delas; se apaixonam, sentem prazer, têm direitos reprodutivos, portanto têm uma sexualidade, a possuir um estilo único de ser homem ou mulher, a viver como solteiro ou numa união estável, ter filhos ou não, e sendo homossexuais, bissexuais ou heterossexuais.

No entanto, a sexualidade das PCD (Pessoas Com Deficiência) não é levada em conta, principalmente, pela falsa crença de que elas não têm sexualidade, ou se lhes fala sobre isso, podem tornar-se sujeitos perigosos haja visto que seus desejos seriam exacerbados, sendo isso um caso de discriminação por causa dos grupos de deficiência que não atendem homossexuais com deficiência e muito menos os grupos LGBT, já que a homossexualidade na deficiência permanece invisível.

O não cumprimento dos direitos sexuais e reprodutivos deste setor é agravado pela discriminação que se vive como pessoa com deficiência, onde os obstáculos são maiores para ter acesso a uma correta orientação sexual. Considerando-se, ainda, que o estigma que a sociedade impõe sobre as PCD, é geralmente internalizado pela própria pessoa que muitas vezes se auto desvaloriza e se auto destrói, a acreditar que não é digna de ser amada, mantendo relações autodestrutivas ou simplesmente não consideram o próprio cuidado como algo prioritário, a colocar-se em risco com gravidezes não planejadas, DSTs (doenças sexualmente transmissíveis) assim como violência sexual.

Consequências:

Faulkner, Fergusson, Garofalo e Remafedi provaram que ser homossexual e não contar com o apoio das pessoas à sua volta leva a maiores taxas de depressão, culpa, pensamentos suicidas, problemas mentais, abuso de substâncias e de álcool, comportamentos sexuais de risco, prostituição como forma de sobrevivência, rejeição familiar, abandono, isolamento emocional, solidão, evasão escolar, doenças sexualmente transmissíveis e maior probabilidade de ser vítima de abuso físico e verbal.

Mas, pelo menos, os meninos e meninas homossexuais podem encontrar grupos de apoio. Em contrapartida, a realidade de homens e mulheres homossexuais com deficiência é mais difícil porque, como mencionado, deles se pensa que são sujeitos carentes de desejos sexuais e com menos necessidade de educação sexual, causando:
  • menor consciência da existência de DSTs e HIV.
  • serviços de saúde inacessíveis.
  • profissionais leigos e desinteressados.
  • mães e pai desinteressados na sexualidade de seus filhos.
  • maior dificuldade de assumir-se como homossexual ("sair do armário").

Sair do armário para os/as homossexuais com deficiência é mais difícil devido à dependência física e emocional, uma vez que existe um maior isolamento e não têm com quem falar, com medo de perder o apoio e carinho de seus cuidadores e familiares, além de sentir mais medo de perder os serviços que recebem, se os prestadores de serviços se inteirarem [de sua sexualidade]. Homossexuais com deficiência não têm espaços seguros para expressar sua orientação, têm maior dificuldade em alcançar e manter relacionamentos e, por conseguinte, relações estáveis, não há acessibilidade nos lugares de encontro, por vezes, seus intérpretes [no caso das pessoas surdas e/ou mudas] e assistentes pessoais são homofóbicos, portanto, não têm o apoio para desenvolver relacionamentos, entre muitas outras questões.

Por isso, é necessário tomar medidas para que se cumpra o direito à não-discriminação, como a promoção de uma adequada educação sexual, dirigida tanto para a pessoa com deficiência quanto para a família, trabalhar contra a discriminação de pessoas com deficiência que são lésbicas, gays, bissexuais travestis, transexuais ou com qualquer uma dessas vivências, promover e defender os direitos humanos, sexuais e reprodutivos, facilitar o acesso da pessoa com deficiência e seus familiares aos centros de apoio, promover o [seu] reconhecimento como como seres valiosos e detectar e prevenir a violência sexual e a violência familiar em relação às pessoas com deficiência.

Tradução e adaptação por este blogue.

MORALES D., Federico. Homosexualidad y Discapacidad. Revista Accesos Vol. 3, nº 13. Disponível em http://www.revistaccesos.com/blog/educacion/homosexualidad-y-discapacidad/ (acesso em 17 de fevereiro de 2015)

Autismo: vida adulta e envelhecimento

Por Claudio Hunter Watts [1]

Leo Kanner (1896-1981) foi um psiquiatra austríaco que realizou a descrição da síndrome de autismo. Nascido no Império Austro-Húngaro e graduado em Medicina em Berlim, migrou para os Estados Unidos em 1923. Em 1930, contribuiu para o desenvolvimento do serviço de Psiquiatria Infantil do Hospital Johns Hopkins, em Baltimore, do qual foi um dos fundadores. Seu primeiro livro foi “Child Psychiatry” (Psiquiatria Infantil), mas seu trabalho mais destacado foi “Autistic Disturbances of Affective Contact” (1943) e é um dos fundamentos para o conhecimento do autismo.

Se bem que até aquele momento, as crianças com condutas autísticas eram confundidas com pessoas esquizofrênicas e, ao longo dos anos, os critérios para diagnósticos foram modificados. De qualquer maneira, o autismo "chegou à fama" graças a Hollywood, com a produção do filme Rain Man (“Rain Man - Encontro de Irmãos”, em Portugal), estrelado por Dustin Hoffman e Tom Cruise, vencedor dos prêmios "Oscar", em 1988, de Melhor Ator, Melhor Diretor, Melhor Filme e melhor roteiro original.

Assim, começaram a aparecer nos meios de comunicação notícias sobre o autismo, desde suas características até suas possíveis curas. Também se tornou conhecida a Síndrome de Asperger, incluída no DSM-4 (“Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders” ou “Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais”) publicado pela Associação Psiquiátrica Americana e no CID-10 (Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde) – definido da seguinte forma: Transtornos gerais do desenvolvimento com déficits graves e alterações em diversas áreas do desenvolvimento, como a interação social, a comunicação, ou na existência de comportamentos, interesses ou habilidades estereotipadas. Também incluídos: Autismo infantil, Síndrome de Rett, Síndrome de Asperger, Transtorno desintegrativo da infância e Transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação. Atualmente, já publicado o DSM-5, são conhecidos como todos pertencentes ao "Transtorno do Espectro do Autismo (TEA)" enterrando definitivamente o conceito de Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGD), que não só era bastante confuso, mas também ambíguo.

Nos dias atuais, já existe certamente uma "moda" instalada, referida ao autismo e existem muitos filmes ou séries de TV que incluem um personagem – pelo menos – com características autísticas, com base numa parte específica mínima do espectro: os "savants" ou pessoas com um enorme conhecimento em uma determinada área particular e com problemas de socialização. Também – a partir dos países centrais ou desenvolvidos – começaram a surgir associações e entidades que foram bem sucedidas na divulgação deste espectro particular de transtornos à população, a alcançar dessa maneira uma maior tolerância a comportamentos bizarros das crianças, tanto em espaços públicos quanto no sistema educacional, com perguntas, idas e vindas e nada muito bem definido, se generalizaram diferentes paradigmas baseados na integração e na inclusão. Da Universidade da Califórnia, a tenaz equipe de pesquisadores liderada pelo Dr. Ole Ivar Loovas (1932 – 2010) emerge e sistematiza o método ABA (“Applied Behaviour Analysis” ou “Análise Comportamental Aplicada”) como uma ferramenta educacional, que usa um processo ordenado chamado Discrete Trial Training (“DTT” ou “Ensino por Tentativas Discretas”) – originado – entre outros – pelo Dr. Charles B. Ferster em 1960 e que aplicara, com sucesso, os princípios do behaviourismo com base no reforço de comportamentos desejados e punições inadequadas em crianças com autismo no Linwood Children Center (MD). O ABA administrado em idade muito precoce e necessariamente adaptado a cada criança em particular, altera positivamente o presente e o futuro da criança com autismo. Em breve, outros métodos baseados no mesmo princípio, como o Picture Exchange Communication System (PECS), Pivotal Response Training (PRT), Verbal Behaviour (VB), Comprehensive Application of Behaviour Analysis to Schooling (CABAS®) etc. buscam melhorar a qualidade de vida das pessoas com autismo.

Nosso país (Argentina) – apesar de ser dominado pela cultura da psicanálise, que nega o conhecimento científico – não tem sido a exceção e tanto pelas [lutas] das associações de pais, bem como pelos destacados profissionais, entidades de prestígio e a excepcional Lei 24.901 de proteção às pessoas com deficiência está sendo alcançado de forma "razoável", mas ainda com progresso muito no sentido de integração educativa e social das crianças com autismo, que nos coloque na vanguarda na América Latina.

Mesmo assim, não há nenhuma intenção de fazer uma real e verdadeira "detecção adiantada" do autismo em crianças pequenas, ainda que existam instrumentos para fazê-la através de um teste simples com a idade de 18 a 24 meses; existem poucos centros especializados em educação e no tratamento nos casos mais graves que, curiosamente, são muito numerosos e o Estado não apoia a manutenção dos já existentes, ou nem criar novos [centros]. Inexistem ainda cursos de Ensino Superior ou universitários relacionados à saúde ou à educação que sequer mencionam o autismo. Outro problema é a ausência de métodos ou espaços que prestem conhecimento às famílias dessas pessoas, que sofrem um prolongado e incomum estresse pessoal somado a um isolamento social que persiste apesar da maior conscientização do transtorno e o provável aumento do tempo para encontrar um diagnóstico, o certificado de incapacidade, inscrever-se num Serviço Social, “matricular” a criança no jardim infantil, buscar uma “cuidadora” ou uma escola especial ou um centro terapêutico educacional. Merecem também um capítulo à parte as festas de aniversário, a ida a um restaurante ou a participação em qualquer espaço público, ao dentista, as “visitas”, os “Anos Novos”, as férias, os parentes etc. Nada disso é comparável à particular angústia causada pela chegada da puberdade e adolescência e o amargo sentimento que se apodera dos pais perante o futuro incerto: "quando eles [os pais] já não estiverem aqui para cuidar deles [dos filhos autistas]".

Apesar de a ênfase ser comum nas crianças, o autismo é uma síndrome que dura toda a vida do indivíduo e a expectativa de vida são semelhantes ao resto da população. Estatísticas sobre as pessoas com autismo são impiedosas e estima-se que pelo menos uma criança de oito anos, em cem, sofre de alguma forma do transtorno de acordo com os novos critérios de diagnósticos, (embora alguns destes tendem a ser meio precários). Assim, o futuro das crianças e jovens, diagnosticado com autismo não diferirá muito dos atuais adultos com autismo: enquanto seus pais viverem e puderem, estarão em seus cuidados. Depois, viverão em conjunto habitacionais, “lugares” populosos, hospitais psiquiátricos e "colônias", e finalmente, e em total coincidência com Michel Foucault, "onde a sociedade mantém sua loucura".

Diante de um Estado ausente de iniciativas, a proposta superada é a que propõe a força das associações e organizações que procuram mudar este ilógico e absurdo presente: nos Estados Unidos, a Autism Society of America (“ASA” ou “Sociedade Americana de Autismo”), fundada em 1965 por Bernard Rimland, PhD, junto com Ruth Sullivan (mãe de Robert, que serviu de inspiração para o roteiro de "Rain Man"), conseguiu chegar à criança de um “sistema" que atualmente tutela. Consiste em pequenos grupos (até 10 residentes), que vivem na sociedade gerida por eles mesmos – quando isso é possível – ou assistidos por pessoal treinado e controlado pelas entidades. Conservam dessa forma o sentido de sua individualidade, o potencial do trabalho, a amizade entre os pares, o domínio sobre seus pertences e conforto e a possibilidade de cuidar de si mesmos e de seu espaço pessoal com responsabilidade, a cumprir as "obrigações" com relação à limpeza comum, à organização geral, à preparação de refeições, sair e desfrutar do conforto de viver em comunidade e não por fora desta. Isso é um sonho? Talvez, mas na prática tem provado ser mais eficaz no cuidado do bem estar, da independência e da saúde dos moradores, bem como – e curiosamente – é muito mais econômico para o Estado do que as "colônias" ou "lugares", como são conhecidos nestas latitudes.

De como cuida o Estado de seus seres mais vulneráveis se deduz a qualidade de seus habitantes e este  convenhamos  não fala bem de nós ou das nossas instituições. Certamente o autismo contém genes misteriosos ainda não revelados que estão expostos nos comportamentos estranhos e intensos de suas condutas, algumas exóticas, outras lógicas, e mais ainda indecifráveis. Nos últimos 15 ou 20 anos o conhecimento científico permitiu-nos entendê-los, comunicar-nos e socializa-los a níveis impensáveis no passado, no entanto  e apesar do fato de que eles crescem e envelhecem – continuam a ser eles, os seres mais interessantes que habitam o nosso planeta.

Disponível em http://autismodiario.org/2013/07/04/autismo-vida-adulta-y-envejecimiento/(acesso em 15 de fevereiro de 2015)

***

[1] Claudio Hunter Watts é licenciado em psicologia e sócio-fundador da Cooperativa San Martín de Porres.

Autistas antes do autismo

Créditos: Supporting Success
Algumas questões levantadas neste texto tiveram início após uma conversa com a minha terapeuta. Ela perguntou: «Você já teve a oportunidade de pensar como seria sua vida em décadas ou mesmo séculos passados?». De fato, nunca havia pensado em algo parecido. E pensar dessa forma, ainda. Pensar em algo que não aconteceu soa estranho. Esse «se» complica minha vida. Ela continuou: «A vida de pessoas com transtornos e distúrbios mentais não era fácil. E ainda pense na sua homossexualidade. Provavelmente, você estaria internado num hospital psiquiátrico». Confesso que tive certo alívio por viver nos dias atuais. Décadas, séculos e milênios passados parecem bem difíceis e opressivos. Já li algumas resenhas do livro «Holocausto Brasileiro», da jornalista Daniela Arbex, sobre o hospício (ou manicômio) de Barbacena, no estado de Minas Gerais – pretendo adquirir esse livro algum dia. O tratamento dado a pessoas com transtornos era o pior imaginado. Certas tendências da psiquiatria e da psicologia em voga no país na primeira metade do século XX eram totalmente patologizantes. Pessoas surdas, mães solteiras, crianças autistas e jovens psicóticos permaneciam dopados com medicamentos e eram submetidos a tratamentos desumanos. Muitos morriam e eram enterrados num cemitério anexo ao hospital. É certo que esse contexto é totalmente hostil a pessoas como eu.

Contudo, minha curiosidade – e como sou curioso! – aumentou e tive o interesse em saber a vida de pessoas autistas em outros séculos. É certo que a palavra «autismo» teve seu primeiro uso pelo psiquiatra austríaco Eugen Bleuler (1857 – 1939), em 1911. Deriva do grego «αυτισμός», com o significado de «voltado a si mesmo» e designava na época algumas características de indivíduos considerados «esquizofrênicos».  O resto da história, já fazemos ideia: Leo Kanner, Hans Asperger, Lorna Wing, Ole Ivar Lovaas, Uta Frith e demais cientistas envolvidos no estudo do autismo. Mesmo que o termo seja relativamente recente, isso não significa que o autismo seja algo contemporâneo. Sua existência é antiga, mas nossos conhecimentos sobre esse transtorno são parcos e atuais. O autismo envolve uma série de mecanismos complexos que regulam o desenvolvimento do cérebro, dos quais pouco se sabe. E ainda muitas questões permanecem sem resposta. Como a genética contribuiu para a existência do autismo? Como o ambiente interferiu no seu surgimento? Qual seria a vantagem dessa mutação? Enfim...

É provável que o olhar sobre as pessoas autistas dependa da cultura e da época. Conheço casos de autistas adultos que viveram em comunidades rurais e de difícil acesso e foram tratados como possessos ou exóticos. A compreensão e a tolerância com as condições da mente que saíam do normal ou comum eram bem menores. Já comentei vagamente sobre isso noutra postagem. Por outro lado, a sociedade atual é muito confusa e complexa. Quando meus avós paternos conversavam sobre a infância que tiveram, suas palavras remetiam a um mundo mais tranquilo, com trabalho estável e com muita rotina, o que para uma autista não seria nada ruim. 

A Alemanha também pode nos dar algumas pistas. Numa sociedade governada por políticas de eugenia, os nazistas esterilizavam e matavam pessoas com problemas mentais e desviantes sociais. Foi o programa Aktion T4. Três mil e quinhentas pessoas autistas, de crianças a adultos, foram assassinadas na Alemanha e na Polônia, entre vinte de janeiro de 1940 a dezembro 1944. As mortes ocorreram das mais variadas formas: câmaras de gás, injeção letal, fome, tiro etc. Em pleno regime nazista, Hans Asperger (1906 – 1980), ele mesmo austríaco, defendeu com paixão o valor social das pessoas autistas:

Estamos convencidos, então, que as pessoas autistas têm o seu lugar no organismo da comunidade social. Eles desempenham bem seus papéis, talvez melhor do que qualquer outra pessoa poderia, e estamos a falar de pessoas que, quando crianças, tinham as maiores dificuldades e causaram preocupações incalculáveis aos seus cuidadores. [1]

Incrível o papel que o professor Hans Asperger teve na humanização dos autistas, embora não pudesse fazer muita coisa. 

Bem, ainda estou a realizar minhas pesquisas. Pretendo continuar essa discussão noutro momento e trazer novidades. 

Nota:

[1] Tradução inglesa. "We are convinced, then, that autistic people have their place in the organism of the social community. They fulfil their role well, perhaps better than anyone else could, and we are talking of people who as children had the greatest difficulties and caused untold worries to their care-givers."


Referências:

AUTISM_MEMORIAL. 3,500 Aktion T4 Victims. Disponível em http://autism-memorial.livejournal.com/38663.html (acesso em 5 de fevereiro de 2015)

BRADSHAW, Stephen. Asperger's Syndrome – That Explains Everything: Strategies for EDUCATION, LIFE and Just About EVERYTHING ELSE. Londres: Jessica Kingsley Publishers, 2013, p. 45. Disponível no Google Books 

COQUETTI, Sillene. Livro Holocausto Brasileiro é lançado na reunião da Comissão da Verdade. Disponível em http://www.al.sp.gov.br/noticia/?id=337128 (acesso em 5 de fevereiro de 2015)

Autistas nos desenhos animados e nos comics

A inclusão é um tema que tem sido abordado nos últimos decênios, muitas vezes com o intuito de esclarecer ou informar sobre a deficiência ou limitação da personagem. Alguns estúdios mundo afora têm tratado com cuidado esse assunto. Nós, pessoas com deficiência ou com alguma limitação física e/ou psiconeurológica, enfrentamos muita coisa no nosso quotidiano para ultrapassar as barreiras e os preconceitos da vida. Nada melhor do que sentir-se representado de alguma forma e saber que não é o único indivíduo que enfrenta esses problemas e limitações. 

Quanto ao autismo, alguns autores têm procurado mostrar o potencial de pessoas autistas e buscaram inspiração em pessoas próximas ou conhecidas para a criação de suas personagens nas animações e nas HQs/BDs [1]. A seguir, alguns exemplos mais comuns ou conhecidos – ou até mesmo desconhecidos!

POW! ZAZ! KABOOM! Autistas com superpoderes!

A ideia de seres humanos com poderes inexplicáveis teve origem na Antiguidade. Quem nunca ouviu falar no semideus Hércules, no deus egípcio Horus ou mesmo no bíblico Sansão? Portadores de uma força supra-humana, eles protegiam seus povos de influências e ataques estrangeiros. Mas somente no século 20 é que autores deram vida a uma tropa de seres incríveis que estão aptos à salvar a humanidade e – claro! – a uma lista detestável de vilões. Essas personagens personificam a eterna briga entre o bem e o mal e são transportados para uma realidade paralela, semelhante à nossa, mas onde as possibilidades são praticamente infinitas. Vejamos alguns superautistas!

Créditos: DC Comics
Black Manta (também conhecido como Manta Negra ou Arraia Negra). É um vilão da DC Comics. É um dos maiores inimigos do Aquaman. Ele apresenta um equipamento de alta tecnologia que o permite viver submerso por um bom tempo. Inicialmente era um homem de aparência comum (afro-americano), mas teve sua aparência alterada temporariamente para um híbrido de ser humano e arraia após um pacto com um espírito maligno. Como é comum nas histórias em quadrinho, passagens obscuras ou mesmo ambíguas de muitos heróis e vilões são recontadas ou esclarecidas. Segundo a revista Aquaman (vol. 6, nº 8, 2003 e escrita por Rick Veitch), o Manta Negra era um órfão que foi encaminhado para um abrigo de Gothan City. Lá, além de sentir-se confortável com a água gelada, sua estadia foi traumática. Além da negligência dos funcionários do abrigo, o pequeno Black Manta foi diagnosticado com autismo e sentia-se incompreendido e isolado. O menino acabar-se-ia submetido a tratamentos experimentais. Num desses experimentos, o menino torna-se violento e mata o cientista que havia realizado a pesquisa com ele.

Créditos: The
Appendix to the
Handbook of the
Marvel Universe
Dehman Doosha (ou simplesmente Jonny Do). Seu real nome é desconhecido. Foi um adolescente ucraniano que pertencia à Psi-Force. A Psi-Force era formada por adolescentes com poderes paranormais do universo Marvel. Diferentemente dos outros super-heróis, os jovens da Psi-Force tinham seus poderes limitados e eram mais próximos da realidade, sem a presença de seres mitológicos, deuses ou alienígenas. O nosso personagem Johnny Do, nascido em 1976, tinha autismo clássico. Foi tratado como uma cobaia para um projeto soviético que investigava paranormais. Sua habilidade era basicamente a pirocinésia (manipulação do fogo), o que provoca a inflamação das moléculas de oxigênio no ar. Algumas vezes, as chamas tomam a forma e as dimensões das manifestações subconscientes de sua mente.

Créditos: Wikipedia
David Charles Haller (“Legion” ou traduzido como Legião) é um mutante do universo Marvel. É filho do famoso telepata Charles Xavier (fundador dos X-Men) e da sobrevivente do nazismo Gabrielle Haller. Legião é uma figura complexa. Não é necessariamente um vilão, mas sim um anti-herói. Seu visual é de um homem extremamente magro e com cabelo arrepiado. Nasceu no Estado de Israel e é praticante esporádico da religião judaica. Embora seja um mutante com uma provável telepatia, seus poderes são pouco explorados e ele não é capaz de controla-los. Teve uma infância traumática e viveu a maior parte de sua vida a desconhecer seu pai. Apresenta múltiplas personalidades, cada uma com um poder diferente. Na revista “New Mutants” (nº 27) é descrito como autista e esquizofrênico. Também apresenta transtorno dissociativo de identidade (originalmente denominado transtorno de múltiplas personalidades ou dupla personalidade). David Charles também apareceu na animação X-Men Evolution, em “Sins of the Son” (“Pecados do Filho”), no episódio quatro da quarta temporada. Na animação, Legião tem três personalidades: David, Ian (um garoto mudo e autista) e Lucas (um jovem com visual andrógino).

Legião como Ian (esquerda), David (centro) e Lucas (direita)

COM A LUZ... Autismo no Oriente

Créditos: 7netshopping.jp
Keiko Tobe (1957 – 2010; em japonês 戸部 けいこ) foi uma mangaká [2] e uma mulher pioneira ao incluir o tema do autismo nos mangás japoneses, através do seu trabalho ~Jiheishouji o Kakaete~ (“光とともに...-自閉症児を抱えて-”; “Com A Luz... Ajudando Uma Criança Autista”). A série é centrada numa família formada por um casal e por seu filho autista. Na obra, os problemas da família e as dificuldades com o filho são frequentes. Hikaru Azuma (“東光”) é o primogênito da família e tem autismo. Nos seus primeiros dias de nascido, Hikaru detestava ser carregado e acariciado como os demais bebês. E também não crescia em sintonia com as outras crianças de sua idade, o que levou sua mãe Sachiko (“東幸子”) a procurar ajuda especializada. Hikaru-kun (“forma carinhosa em japonês para chamar crianças do sexo masculino”) sempre usou fraudas devido ao seu autismo. Ele também não gosta de barulhos, ruídos, multidões, choros de outros bebês e mantras e cânticos budistas. Tem interesse por trens e memoriza muitos modelos, mesmo aqueles que estão fora de circulação. Como todo autista, Hikaru odeia sair da sua rotina e isso o perturba muito. Ao fim da série, alguns talentos se desenvolvem, como misturar cores e uma apreciação por cozinhar. O pai de Hikaru e esposo de Sachiko chama-se Masato Azuma (“東雅人”). Sua irmã mais nova tem o nome de Kanon (“東花音”). 

UM AMIGUINHO DIFERENTE – Um autista na turminha

André (ao fundo) e Mônica
Crédito: www.ama.org.br
Talvez seja exagero da minha parte, mas considero o Maurício de Sousa o maior cartunista brasileiro. Seus gibis fizeram parte da infância e adolescência de praticamente todo adulto deste país. Nos últimos dez anos, Maurício de Sousa teve uma preocupação em representar diversos grupos e tipos de crianças no universo criado por ele (uma lastimável exceção é a baixa presença de personagens negras, mas essa discussão não cabe a este blogue). Crianças com deficiência também estão presentes. 

O personagem de inclusão mais famoso é Humberto, que é um menino mudo. Dorinha é uma menina cega. Luca é o menino cadeirante, enquanto Tati é uma menininha com síndrome de Down. Por fim, temos o André, que é um menino autista.

André tem quatro anos, diferentemente da maioria das personagens, que possui idade entre os sete e oito anos. André não olha nos olhos das pessoas e também não fala “olá!” ou “até mais” para as pessoas conhecidas com quem encontra na rua. Não fala muito e, quando fala, diz apenas o básico e necessário. Ele é quieto e aparenta ser tímido. Mesmo que tenha suas limitações e seja recluso, quando aparece, André se diverte com as demais crianças da vizinhança. Contudo, não brinca de imitação ou “faz de conta”, por ser justamente um menino autista. André foi inspirado num sobrinho do Maurício de Sousa. André e os demais personagens com deficiência da Turma da Mônica fazem parte de propagandas institucionais da “turminha”. 

Notas:

[1] HQ (História em Quadrinhos) e BD (Banda desenhada) são diferentes designações para os chamados “comics”. O primeiro nome é mais usual no Brasil (“gibis” e “revistinhas” também são usados) enquanto o último é mais comum em Portugal. Para evitar problemas, a preferência será pela expressão inglesa “comics”. 

[2] Em língua japonesa “漫画家” (literalmente, “cartunista”). Refere-se ao artista de comics produzidos no Japão.

Referências

Black Manta (New Earth). Disponível em http://dc.wikia.com/wiki/Black_Manta_(New_Earth) (acesso em 27 de janeiro de 2015)

David Charles Haller. Disponível em http://www.adherents.com/lit/comics/Legion.html (acesso em 27 de janeiro de 2015)

Dehman Doosha. Disponível em http://www.marvunapp.com/Appendix3/dehmandoosha.htm (acesso em 27 de janeiro de 2015)

INSTITUTO CULTURAL MAURICIO DE SOUSA. Turma da Mônica: Um Amiguinho Diferente. 15 páginas.

PROTOCOLOS XAVIER. Legião. Disponível em https://protocolosx.wordpress.com/2009/06/09/legiao/ (acesso em 27 de janeiro de 2015)

ROBERTS, Dale J. Black Manta. Disponível em http://aqua.gjovaag.com/bios/manta.html(acesso em 27 de janeiro de 2015)

WITH THE LIGHT: Raising an Autistic Child by Keiko Tobe. Disponível em http://yenpress.us/?page_id=129 

Qual é a prevalência dos TEA (Transtornos do Espectro Autista)?

As estimativas realizadas para pessoas com TEA, aceitas internacionalmente, variam muito. De acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas, ou simplesmente Nações Unidas), seriam cinco para dez mil (ou 0,05%). Para a OMS (Organização Mundial de Saúde), seis para mil (ou 0,6%). E para os Centers for Disease Control and Prevention («Centros de Controle e Prevenção de Doenças» dos Estados Unidos da América ou CDC) teríamos um para 88 (ou 1,1%). Se formos admitir no Brasil, os dados da OMS, teríamos 1.216.611 pessoas com autismo. Para a ONU, haveria 101.384 pessoas com TEA. E ao aceitar as estimativas do CDC, teríamos 2.304.188 indivíduos com TEA. Em Portugal, as estimativas seriam as seguintes: 5.243 (ONU), 62.923 (OMS) e 119.173 (CDC) pessoas com autismo ou TEA.  

Essa variação considerável pode ser explicada, em parte, pela forma como o autismo é investigado, os critérios de diagnóstico e a consciência dos profissionais quanto à síndrome. A pesquisadora Cristiane Silvestre de Paula e seus colaboradores realizaram um estudo num bairro no município de Atibaia, no estado de São Paulo, onde residiam 1470 crianças na faixa etária de 7 a 12 anos. A considerar esse total, doze crianças preencheram os critérios de Transtornos do Espectro Autista, ou 0,82% do total (adolescentes e adultos não participaram diretamente da pesquisa). 

Alguns dados e estatísticas interessantes:

  • Os Transtornos do Espectro Autista ocorrem em todos os grupos étnicos, nacionais, religiosos e socioeconômicos. 
  • Os TEA são quase cinco vezes mais comuns em homens (um em 54) do que em mulheres (uma em 252), a considerar a estimativa do CDC. 
  • Estudos feitos na Ásia, Europa e América do Norte identificaram as pessoas com TEA com uma prevalência aproximada de 1%. Na Coreia do Sul houve uma prevalência de 2,6%.
  • Entre 2006 e 2008, cerca de uma a cada seis crianças nos EUA tinham alguma deficiência de desenvolvimento que variava desde deficiência leve e dificuldades de fala e linguagem até deficiências de desenvolvimento, tais como retardo mental, paralisia cerebral e autismo. 


Referências

BAIO, Jon. Prevalence of Autism Spectrum Disorders — Autism and Developmental Disabilities Monitoring Network, 14 Sites, United States, 2008. Surveillance Summaries. March 30, 2012 / 61(SS03);1-19. Disponível em http://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/ss6103a1.htm?s_cid=ss6103a1_w (acesso em 25 de janeiro de 2015).

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Estimativas da população residente no Brasil e unidades da federação com data de referência em 1º de julho de 2014. Disponível em ftp://ftp.ibge.gov.br/Estimativas_de_Populacao/Estimativas_2014/estimativa_dou_2014.pdf (acesso em 25 de janeiro de 2015).

INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA. População residente. Disponível em http://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_indicadores&indOcorrCod=0003182&selTab=tab0&xlang=pt (acesso em 25 de janeiro de 2015).

KIM YS, LEVENTHAL BL, KOH YJ, FOMBONNE E, LASKA E, LIM EC, CHEON KA, KIM SJ, KIM YK, LEE H, SONG DH, GRINKER RR. Prevalence of autism spectrum disorders in a total population sample. Am J Psychiatry. 2011 Sep;168(9):904-12. doi: 10.1176/appi.ajp.2011.10101532. Epub 2011 May 9. Disponível em http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21558103 (acesso em 25 de janeiro de 2015).

PAULA CS, RIBEIRO SH, FOMBONNE E, MERCADANTE MT. Brief Report: Prevalence of Pervasive Developmental Disorder in Brazil: A Pilot Study. J  Autism Dev Disord. 2011 Feb 21; [Epub ahead of print] PMID: 21337063

Adultos no espectro do autismo: sexualidade e namoro

Créditos:
LACES Gay-Straight Alliance
Por Chat for Adults with HFA and Aspergers [1]

Adultos com Síndrome de Asperger (SA) e com Autismo de Alta Funcionalidade (AAF) têm, de modo geral, diferenças na sexualidade comum (ou mainstream). Há muitos mais que são assexuais quando comparados à média da população. Acredita-se que há uma percentagem ligeiramente maior de indivíduos gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros SA e AAF do que a média populacional.

Adultos bissexuais ou homossexuais com AS e AAF podem encontrar maior probabilidade para relacionamentos na comunidade gay, onde há menos ênfase na conformidade. Mulheres com AS e AAF podem ter mais chances de sucesso nos relacionamentos, em geral, que os homens. Isto se deve às diferenças nas exigências sociais, onde muitas vezes espera-se que o homem peça a mulher em namoro, e não o contrário.

Viver em uma sociedade onde os relacionamentos de longo prazo e começar uma família são a norma, pode ser difícil para homens socialmente inexperientes com SA e AAF encontrar algum(a) cônjuge/companheiro(a). Muitos desses homens ficam longe de namoros por essa razão. Alguns adultos com SA e AAF são celibatários por opção, a sentir de que são assexuais, ou que existem coisas mais importantes na vida. Outros se resignaram ao celibato devido ao fato de que relacionamentos amorosos podem ser muito mais difíceis de encontrar devido a um mal-entendido de habilidades sociais e a dificuldade de encontrar um cônjuge/parceiro(a) adequado(a). 

Casais SA/SA (ou seja, ambos os parceiros estão no espectro do autismo) são muitas vezes mais bem sucedidos do que casais neurotípico/SA (isto é, um dos parceiros está no espectro e o outro não). Os sentimentos sexuais no indivíduo SA ou AAF muitas vezes desenvolvem-se mais tarde do que o habitual – com relacionamentos que se desenvolvem aos 20, 30 ou até mesmo aos 40 anos – e não na adolescência, que é o padrão para pessoas neurotípicas.

Homens e mulheres desfrutam ambos do sexo e do amor, mas os homens tendem "enamorar-se" com mulheres que eles "sexualizam", enquanto que as mulheres tendem a sexualizar os homens pelos quais elas enamoram-se. Uma vez que homens querem sexo a partir dos relacionamentos, eles muitas vezes tentam ser (ou aparentam ser) mais "amorosos" para atrair as mulheres mais sensuais. Já as mulheres querem mais amor nos seus relacionamentos, muitas vezes eles tentam ser (ou parecem ser) "mais sensuais" para atrair os homens mais amorosos e que sirvam de suporte. A ideia em ambos os casos é que cada cônjuge/parceiro(a) dê ao(à) outro(a) o que eles querem, a fim de receber o que eles querem. Assim como existem homens que fazem uma prática de uma noite para fins de somente adquirir sexo com muitas mulheres, há mulheres que fazem uma prática de uma noite com o propósito de obter amor de muitos homens.

Atrair um(a) parceiro(a) leva à exposição. Onde quer que esteja, ter outra pessoa que goste de você e que passe o tempo com você leva tempo, esforço e algum dinheiro (por exemplo, levar seu parceiro para comer fora). Uma curtida ou ficada bem sucedida pode acontecer em bares, clubes, cafés, centros comerciais, elevadores – seja qual for o exemplo escolhido! Não é uma questão de encontrar o namoro potencial; ao contrário, é uma questão de começar, crescer e manter o relacionamento depois de ter encontrado um(a) parceiro(a) em potencial.

Cá estão algumas dicas para você começar com seu(sua) parceiro(a) em potencial:

1) Pergunte ao seu provável parceiro o que ele pensa sobre senso de relacionamento e fale confortavelmente (no fim, a conversa fluirá).

2) Fazer perguntas pessoais pode parecer assustador (por exemplo: "Aonde você vai?") e não é admissível.

3) Foque apenas no rosto do seu provável parceiro ao invés de “digitalizar” seu corpo.

4) Se o seu provável parceiro perguntar "Você quer ir à minha casa?", não significa, necessariamente, que ele/ela quer sexo. Se você quer ir à sua residência, dê uma resposta positiva e definitiva com um sorriso (por exemplo, "sim" ou "claro"), mas não demonstre parecer demasiadamente entusiasmado (isto é, muito ansioso). Uma resposta negativa ou hesitante é sempre ofensivo. Então, é o entusiasmo excessivo sobre as perspectivas.

5) Dizer algo que seja bastante inócuo (por exemplo, "Seria bom falar com você novamente" ou "Gostaria de sair para comer alguma vez?") é melhor do que pedir de uma forma que pareça muito agressiva ou insistente (por exemplo, tirar a caneta e seu bloco de notas e perguntar "Qual é o número do seu telemóvel/celular?").

6) Sorria e faça um bom contato visual. Estes são comportamentos de flerte/paquera, mas entenda que eles podem parecer assustadores se não houver retorno.

7) Nota para os homens: quanto ao toque, é melhor que você deixe que a sua parceira tome a iniciativa. Caso contrário, pode parecer que você esteja a avançar de forma inadequada (algo bem desanimador).

Tradução e adaptação por este blogue.

CHAT FOR ADULTS WITH HFA AND ASPERGERS. Adults on the Autism Spectrum: Sexuality and Dating. Disponível em http://www.adultaspergerschat.com/2013/04/dating-tips-for-adults-on-autism.html (acesso em 10 de janeiro de 2015)

Nota do tradutor:

[1] Algumas dicas podem soar estranhas ou descontextualizadas, devido às diferenças culturais.